domingo, 3 de maio de 2026

Ditaduras Discretas

O mundo, até pouco tempo atrás, vivia um surto de utopia democrática. Com a queda da União Soviética, o fim das ditaduras na Europa Oriental e a redemocratização da América Latina, os anos 90 e o início dos anos 2000 foram marcados por uma onda otimista. Parecia que a liberdade de expressão, os direitos humanos e a alternância de poder seriam, finalmente, o padrão global. O sonho da globalização que derrubaria as fronteiras e criaria um mundo "livre". Mas a euforia durou pouco. Muito pouco.

A partir do século XXI, o cenário mudou. Primeiro, os atentados de 11 de setembro de 2001 desencadearam uma resposta militar global liderada pelos EUA que, muitas vezes, sacrificou liberdades em nome da segurança. Depois, a crise econômica de 2008 abalou a confiança nas instituições tradicionais, abrindo caminho para líderes extremistas.

Seja nos EUA e na Europa, onde o foco recai sobre a imigração, ou em países como o Brasil, onde pautas como o negacionismo e a chamada "guerra cultural" ganharam força, a polarização virou regra. Líderes como Donald Trump, Jair Bolsonaro, Viktor Orbán e Vladimir Putin tornaram-se símbolos de uma era onde a repressão e o autoritarismo voltaram a ganhar terreno em nações antes consideradas democracias sólidas.

O Raio-X do Autoritarismo Moderno

Dados da Human Rights Watch e do Instituto V-Dem mostram uma realidade preocupante: cerca de 72% da população mundial vive hoje sob regimes autoritários. Mais de 100 países apresentam retrocessos democráticos. O roteiro é quase sempre o mesmo:

  • Ataques à imprensa livre;
  • Uso de tortura e perseguição política;
  • Leis que limitam a liberdade de expressão;
  • Fraudes eleitorais ou ameaças a minorias.
Segundo o Instituto V-Dem de democracia, países como EUA já deixaram de ser classificados como "Democracia Liberal" para ser considerada uma "Democracia Eleitoral", estando na 47° posição e pela primeira vez na história, ficando abaixo do Brasil, que está na 32° posição no geral e sendo considerado nos últimos dois anos um país que se "redemocratizou" após anos de governos com tendências autoritárias. Outros países que estão na contramão foram a Argentina, Hungria, El Salvador e Nicarágua. O Instituto criou as classificações dos regimes políticos pelo mundo inspirado pelo modelo de poliarquia desenvolvido cientista político Robert Dahl (1915-2014), que se baseia em seis garantias institucionais para classificar um regime: representantes eleitos, eleições livres e justas, liberdade de expressão, fontes alternativas de informação, autonomia de associação e cidadania inclusiva. O modelo desenvolvido por Dahl, quanto mais candidatos em uma eleição representando diversos fragmentos na sociedade, mais democrática será uma eleição. Uma eleição com poucos candidatos, mesmo com muita participação popular, para Dahl, tenderia para o autoritarismo. Dentro desta lógica, Dahl era um grande crítico do modelo bipartidário dos EUA devido a falta de diversidade em seus candidatos. 

A grande maioria dos regimes considerados "Autocracia Eleitoral", que são países cujo há eleições para o executivo, porém com restrições a liberdade de expressão e com processos eleitorais pouco transparentes, com os governantes no poder sempre ganhando com altos percentuais ou "Autocracias Fechadas", onde não há eleições para o executivo e com restrições aos direitos humanos, falta de liberdade de expressão e sem liberdade de associação, estão em países dos continente africano e asiático, onde vivem a maior parte da população global. 

Mapa de classificação dos países, segundo seu regime eleitoral e política para o Instituto V-Dem em 2025 

Além do "Eixo do Mal" Tradicional

Quando falamos em ditadura, o senso comum aponta logo para os suspeitos de sempre: a Rússia de Putin, a China de Xi Jinping, a fechada Coreia do Norte, o Irã dos Aiatolás, o Afeganistão sob controle do Talebã ou a Venezuela. Esses regimes estão constantemente sob os holofotes da mídia e das redes sociais. Ou não são classificados como um "Eixo do Mal, que ficou famoso em discurso do ex-presidente dos EUA George W. Bush, que designou assim países autoritários que teriam supostamente "Armas de destruição em massa" e acusou diretamente os regimes do Irã, Iraque e Coreia do Norte e segundo o ex-diplomata estadunidense John Bolton, em sua obra "Além do Eixo do Mal", inclui países como Cuba, Líbia e Síria. Em comum, são regimes que possuem ou possuíam algum tipo de oposição a influência dos EUA e seus aliados em seus países. Este discurso foi o pontapé inicial para a invasão de países como Iraque e Afeganistão.

No entanto, longe das manchetes principais, existe um grupo de países com tiranias que duram décadas, mas que são toleradas pelo sistema internacional. São as "ditaduras discretos". Seja por possuírem recursos naturais estratégicos ou por serem aliados úteis para as grandes potências, esses Estados parecem ter um "passe livre" para oprimir suas populações sem sofrer sanções ou críticas pesadas.

Enquanto o mundo discute intervenções em países "incômodos" como Irã ou Venezuela, cujos territórios foram alvos de ações de Trump este ano, tendo sucesso total na Venezuela com a prisão de Madura e em guerra com o Irã, que não se desmontou após a morte do então líder supremo Aiatolá Ali Khamenei, esses regimes invisíveis permanecem estáveis, protegidos por uma rede de interesses econômicos e geopolíticos que pouca gente entende. E todos estes países viveram, desde a sua criação como Estado-Nações modernos como regimes autoritários e tiveram pouca abertura desde então. 

Quem são esses "ditadores de estimação" do mundo moderno? Vamos viajar por esses regimes pouco conhecidos para entender por que, afinal, eles nunca caem. Para isso, utilizaremos como referências as seguintes fontes de classificação para rankings do tipo, sendo:

  • Índice de Democracia pelo Instituto V-Dem do ano de 2026
  • Ranking da Reporteres Sem Fronteiras (2026)
  • Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional (2026)
  • Índice de Democracia pela The Economist (2025)

Eritreia: a "Coreia do Norte da África"

Localização do país no Chifre da África, próximo ao Oriente Médio
     
Localização da Eritreia (acima) e bandeira do país
Localizada no Chifre da África, a Eritreia é um pequeno país que faz fronteira com Sudão, Etiópia e Djibouti, além de ter acesso estratégico ao Mar Vermelho. Com pouco mais de 117.000 km² e população estimada entre 4 e 6 milhões de habitantes, o país é pobre, agrário e situado em uma das zonas mais críticas do mundo — o estreito de Bab al-Mandab, passagem vital entre o Mar Vermelho e o Oceano Índico. Apesar da instabilidade de vizinhos como Somália e Iêmen, a Eritreia mantém uma aparente tranquilidade sustentada por um dos regimes mais repressivos do planeta. Conhecida como a "Coreia do Norte da África" devido as poucas informações que se tem do lugar, ocupa a antepenúltima posição no índice de Democracia Liberal do Instituto V-DEM, é o país mais hostil para jornalistas segundo a Repórteres sem Fronteiras e aparece na 150ª posição no ranking de democracia da The Economist (2025). Por fim, aparece na posição 177 de 180 países na lista de países mais corruptos do mundo pela Transparência Internacional (quanto maior a posição, mais corrupto é o país). Como um regime tão autoritário passa tão despercebido?

Indo para a história, a região da atual Eritreia está entre as mais antigas ocupadas por ancestrais humanos, com fósseis de mais de 1 milhão de anos. Ao longo da história, foi dominada por reinos e impérios locais, como o de Axum e o de Medri Bahri, sendo este último fortemente influenciado pelo Império Etiope e pelo Império Otomano. No fim do século XIX, a Itália colonizou a região mesmo após ter perdido a primeira guerra contra a Etiópia. Com a Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido assumiu o controle e, em 1952, por decisão da ONU, entregou o território à Etiópia como federação — uma forma de compensar o imperador Haile Selassie pelo apoio contra os italianos e garantir à Etiópia acesso ao mar. A população da região era contra a autoridade etiope, porém a autonomia foi aceita. Esta, no entanto, durou pouco: em 1962, a Etiópia dissolveu o parlamento local e anexou o país, deflagrando a Guerra de Independência da Eritreia (1962–1991). A independência foi reconhecida em 1993, deixando a Etiópia sem saída para o mar desde então. 

Desde então, a Eritreia nunca conheceu outro governante: Isaias Afewerki, então líder pela independência eritreia,  está no poder desde 1993. Embora uma constituição multipartidária tenha sido aprovada em 1997, nunca foi implementada e o país é governado por decretos diretos. O regime impõe serviço militar obrigatório de 18 meses, mas na prática ele pode se estender por décadas, configurando trabalho forçado. A deserção leva à prisão do fugitivo e de seus familiares. A imprensa é totalmente controlada, jornalistas independentes estão presos ou desaparecidos, e a tortura é sistemática. O país é fechado ao turismo e à imprensa estrangeira. Raras notícias surgem em competições esportivas, quando atletas aproveitam para desertar — como ocorreu em abril deste ano com sete jogadores da seleção de futebol, que fugiram após um jogo fora de casa contra Essuatini. Por conta deste fato, o país é conhecido por pouco participar de competições internacionais. 

Imagem da capital Asmara

  
Imagem recente do ditador Isaias Afwerki. Fonte: Ministério da Informação da Eritreia

 
Por que o regime eritreu não recebe a mesma atenção internacional que outros regimes autoritários? A resposta envolve múltiplos fatores. Primeiro, a Eritreia não possui recursos minerais ou petrolíferos que despertem a cobiça das grandes potências, sendo um país pobre e agrícola. Segundo, uma eventual queda do regime poderia gerar instabilidade regional semelhante à da Somália (após a queda de Siad Barre, em 1991) ou do Iêmen (após a saída de Saleh, em 2011) — um risco impensável em uma zona crítica para o comércio global, com consequências vistas até hoje com terrorismo e pirataria na região. Além disso, a Eritreia é um país multiétnico, e um vácuo de poder poderia desencadear conflitos entre grupos rivais e arrastar alguns dos vizinhos. Por fim, o regime de Asmara soube se reposicionar: em 2018, assinou a paz com a Etiópia e se aproximou de atores regionais como Egito, Arábia Saudita e Israel — este último mantém, segundo relatos, uma base secreta no país para conter a influência iraniana. Isaias Afewerki é visto como um aliado incômodo, paranoico e recluso, mas útil para a frágil estabilidade local. Por isso, seu regime é tolerado de uma forma que Coreia do Norte, Venezuela ou Irã dificilmente seriam.

Laos: discrição entre vizinhos famosos

Localização do Laos (acima) e bandeira do país (abaixo)


Bandeira do país






















O Sudeste Asiático abriga alguns dos países mais populosos e visitados do mundo, como Indonésia, Vietnã e Tailândia — nações acolhedoras e destinos turísticos consagrados. Mas entre a Tailândia, Vietnã e China, um país montanhoso, sem acesso ao mar e com menos de 8 milhões de habitantes e um território de 236.800 km² passa quase despercebido: o Laos. Ao contrário dos vizinhos badalados e cheios de praias, o Laos é coberto por florestas e montanhas, e esconde um dos regimes mais autoritários do planeta. Sem quase ninguém saber, ocupa posições críticas nos rankings internacionais: é o 153º em liberdade de imprensa pela Repórteres sem Fronteiras, o 159º no índice de democracia da The Economist e o 164º no ranking V-DEM. Seu silêncio, porém, é fruto de uma longa história de reinos, colonização e guerras.

Entre os séculos XII e XVIII, o território pertenceu ao reino de Lan Xang, que depois se fragmentou em três reinos: Luang Prabang, Vientiane e Champasak. No fim do século XIX, o Laos tornou-se colônia francesa como parte da Indochina Francesa, ao lado do Vietnã e do Camboja. Ocupado brevemente pelo Japão na Segunda Guerra Mundial, conquistou autonomia e, em 1953, a independência como monarquia. Mas, assim como o vizinho Vietnã, logo mergulhou em uma guerra civil entre forças apoiadas pelos Estados Unidos e pelos socialistas (apoiados por União Soviética, China e Coreia do Norte). Embora pouco lembrado, o Laos foi intensamente atingido pela Guerra do Vietnã: tropas norte-vietnamitas ocuparam partes do país, e os EUA despejaram cerca de 2 milhões de toneladas de explosivos — a mesma quantidade usada em toda a Segunda Guerra Mundial — tornando-o o território mais bombardeado da história por quilômetro quadrado. Até hoje, milhões de bombas não detonadas permanecem no solo, representando perigo constante e, paradoxalmente, viraram fonte de renda para famílias que coletam sucata, além de ter virado matéria-prima para a reconstrução do país. Em 1975, os socialistas venceram e instauraram a República Democrática Popular do Laos, regime unipartidário que persiste como um dos últimos Estados socialistas do mundo, ao lado de Cuba, China, Coreia do Norte e Vietnã.

Diferentemente de seus vizinhos socialistas maiores, que se abriram economicamente e se desenvolveram, o Laos continua entre as nações mais pobres da região, com PIB per capita de cerca de 2.100 dólares , dependente da agricultura e da nascente mineração e turismo sob um regime autoritário. O poder não se concentra em uma única figura, mas é exercido de forma centralizada pelo Partido Popular Revolucionário do Laos há mais de 50 anos. Desde 2021, o líder do regime é Thongloun Sisoulith, o primeiro civil a ocupar o cargo. O partido controla toda a imprensa, o parlamento (onde os "cinco opositores independentes" são, na prática, controlados pelo regime) e a população, por meio de um sistema de vigilância chamado "comitês de bairro" — colaboradores que monitoram e denunciam cidadãos, algo como uma "vizinhança delatora". Esse método antecede o regime atual e segue como ferramenta de controle. Críticos do governo recebem penas superiores a dez anos de prisão, mesmo quando se manifestam no exterior. A intolerância religiosa é outro pilar do regime: o Laos é um dos países mais intolerantes a religião do mundo, permitindo apenas o budismo (religião majoritária) e perseguindo cristãos e outras confissões. Constitucionalmente, as religiões são protegidas, mas na prática há uma perseguição a maioria delas. 

Imagem da capital do país, Vientiane, localizada próxima a fronteira da Tailândia

Atual líder do país, Thongloun Sisoulith 
O que mantém esse regime autoritário tão discreto internacionalmente? Primeiro, a pobreza do país e a ausência de recursos naturais estratégicos não despertam a cobiça das grandes potências. Segundo, o regime conta com a conivência do Vietnã — que ainda exerce forte influência no Laos — e, sobretudo, da China. Pequim integrou o Laos à Nova Rota da Seda, conectando o país à sua economia e tendo todo interesse na estabilidade do regime para proteger suas fronteiras e negócios. Além disso, ao contrário da Coreia do Norte, o Laos não adota postura militar ou ideológica de confronto internacional, o que reduz a atenção global. Em 2009, o governo Obama considerou que o país não era mais um regime comunista e tirou as sanções que a nação tinha. Por fim, mesmo sendo parte do chamado "Triângulo Dourado" — importante fonte de heroína — e palco de tráfico sexual e de drogas, sua discrição política faz com que quase ninguém se importe com a situação interna do país.

Myanmar: o regime que nem o Nobel da Paz conseguiu mudar

Localização de Myanmar, entre a Índia, China e o Sudeste Asiático

Bandeira do país
Vizinho do Laos, Myanmar tem um tamanho que não permite passar totalmente despercebido: são mais de 676.000 km² e mais de 55 milhões de habitantes. Entre os países desta lista, talvez seja o que mais chamou a atenção do mundo — inclusive rendendo um Prêmio Nobel da Paz a uma de suas figuras centrais. No entanto, sua história complexa, marcada por golpes, trocas de nome e de capital, revela um dos regimes mais autoritários e brutais do planeta. E todas as tentativas de saída do autoritarismo resultaram, até agora, em fracasso.

A história milenar de Myanmar começa com povos sino-tibetanos e viu surgir, no século XI, o Reino de Pagan — um reino budista que durou até o século XIII, quando caiu durante a expansão do Império Mongol. Após a saída dos mongóis, a região fragmentou-se em diversos Estados até ser unificada pelo Império Toungoo (Segundo Império de Burma) e, depois, pela dinastia Konbaung, que governou até o século XIX. Em 1885, após décadas de conflitos, o Reino Unido anexou o país ao Raj Britânico, ao lado de Índia, Paquistão e Bangladesh. A colonização foi brevemente interrompida pela ocupação japonesa na Segunda Guerra Mundial, e a independência veio em 1948, ainda sob o nome de Birmânia.

A grande virada ocorreu em 1962, quando um golpe de Estado levou o Partido do Programa Socialista da Birmânia ao poder, sob o comando do general Ne Win. Nos 12 anos seguintes, o país foi governado sob lei marcial. Em 1974, uma nova constituição instituiu o regime de partido único, com os militares controlando todas as esferas do Estado. Em 1988, a Revolta 8888 — uma série de protestos liderados por monges budistas — forçou o regime a se abrir e permitir eleições em 1990. Foi quando surgiu a figura da líder democrática Aung San Suu Kyi, cujo partido obteve uma vitória esmagadora. A alegria durou pouco: os militares recusaram-se a ceder o poder e, em 1992, um novo golpe a colocou em prisão domiciliar, mesmo após receber o Nobel da Paz em 1991.

O país mudou de nome para Myanmar — mudança não reconhecida até hoje por EUA e Reino Unido, além da própria oposição. Entre 1992 e 2011, o regime foi comandado por Than Shwe, que isolou ainda mais o país, manteve Suu Kyi presa e transferiu a capital de Yangon (a maior cidade) para Naypyidaw, uma cidade planejada no interior e construída em segredo, com avenidas enormes para pouco mais de 100 mil habitantes. A mudança visava evitar novos protestos como os de 1988, saindo de uma grande cidade para o interior. Mas em 2008, o país sofreu sua maior tragédia natural: o ciclone Nargis matou mais de 200 mil pessoas, e o governo foi acusado de dificultar a chegada de ajuda internacional.

   

Acima, a antiga capital e maior cidade do país Yagon; abaixo, a novíssima capital Naypyidaw

              
               Ex-líder do país e prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi
Pressões internas — incluindo conflitos com minorias étnicas — levaram a novas eleições em 2011, vencidas pelos militares após boicote dos aliados de Suu Kyi. O país foi renomeado como República da União de Myanmar. Após reformas democráticas, o partido de Suu Kyi (libertada da prisão neste momento) venceu as eleições de 2015 e ela tornou-se Conselheira de Estado (não podia concorrer à presidência). Era o primeiro governo não militar em 50 anos, mas o sonho democrático logo se desfez. Seu mandato foi marcado pela opressão brutal contra a minoria muçulmana Rohingya, no oeste do país: mais de 24 mil mortos e 1,5 milhão de refugiados foram para o Bangladesh. Suu Kyi foi criticada internacionalmente por fechar os olhos ao que foi classificado como genocídio e chegou a defender os militares responsáveis pelo massacre. Apesar da instabilidade, seu partido venceu as eleições de 2020 — mas, em 2021, os militares aplicaram um novo golpe. O general Min Aung Hlaing assumiu o poder e Suu Kyi foi presa novamente, condenada por corrupção, e o país mergulhou em uma guerra civil. Hoje, o regime militar controla apenas cerca de 20% do território; o restante está sob domínio de milícias étnicas. E a corrupção segue solta com o novo regime, com Ming Aung sendo acusado de favorecer empresas que possui. 

Redes sociais bloqueadas, oposição desmantelada e repressão violenta a protestos. Myanmar ocupa a posição 174 no índice de democracia do V-DEM e a 169 em liberdade de imprensa (de 180 países), além de ser classificado pela Transparência Internacional como um dos regimes mais corruptos do mundo (posição 169). O genocídio Rohingya continua sem solução e este povo é considerado apátrida pois não é reconhecido pelo governo, além do crime dominar com tráfico humano e tráfico de drogas na região do Triângulo Dourado. Apesar de tanta informação disponível, o país segue fora dos holofotes globais. Por quê?

Atual ditador do país Min Aung Hlaing
Embora o Ocidente imponha sanções, elas são pouco eficazes e não mudaram  a realidade nos últimos anos. O principal interessado na estabilidade do regime é a China. O território birmanês possui riquezas minerais e petróleo pouco explorados, mas o maior interesse chinês é estratégico: com uma longa fronteira com Myanmar, a China utiliza portos birmaneses para escoar produtos e receber mercadorias, contornando o Estreito de Malaca — passagem vital entre os oceanos Índico e Pacífico, controlada por EUA e aliados com o Singapura, Malásia e Indonésia, que poderiam bloquear o acesso chinês em caso de conflito. Myanmar é, portanto, uma rota alternativa indispensável, e Pequim apoia o regime para manter esse corredor estável, independentemente da forma de governo. A Índia, outra potência regional, também apoia o regime militar para conter a instabilidade na fronteira comum, já que Myanmar abriga grupos que conflitam com Nova Déli. 

Útil a interesses regionais, Myanmar permanece presa nesse ciclo. Dificilmente sua situação mudará enquanto for conveniente para seus vizinhos poderosos.

Azerbaijão: dinastia do petróleo

Localização do país, entre a Europa e a Ásia

Bandeira do país
Entre a Europa e o Oriente Médio, na região do Cáucaso, banhada pelo Mar Cáspio e cercada por montanhas, há países que desafiam classificações: ora considerados asiáticos, ora europeus. Um deles, um pequeno país de 86.600 km² se destaca por ser o único de maioria muçulmana xiita e etnia túrquica, além de ostentar a economia mais rica da região. Esse país é o Azerbaijão — um regime autoritário que a Europa tolera graças ao gás e ao petróleo que dele importa. Embora xiita, poderia ser um aliado natural do vizinho Irã, mas mantém relações estreitas com Israel.

O nome do país vem dos azeris, povo túrquico que migrou da Ásia Central a partir do século XI. Antes disso, a região integrou sucessivos impérios persas, como o Sassânida e o Seljúcida. No século XIX, após as Guerras Russo-Persas, o Império Russo anexou parte do território azeri no Cáucaso, dividindo a região com a Pérsia usando o rio Araz como fronteira. Essa divisão perdura: hoje há mais azeris vivendo no Irã (de 15 a 20 milhões) do que no próprio Azerbaijão (cerca de 10 milhões). Com o colapso do Império Russo em 1917, formou-se a efêmera República da Transcaucásia, que durou apenas quatro meses, e o Azerbaijão tornou-se independente por menos de dois anos, até ser conquistado pelos soviéticos. Como República Socialista Soviética do Azerbaijão, o país tornou-se responsável por 80% do petróleo soviético — alvo estratégico que o Eixo tentou alcançar na Segunda Guerra Mundial. Com a independência em 1991, mergulhou em guerra com a vizinha Armênia pelo controle de Nagorno-Karabakh, região de maioria armênia dentro do Azerbaijão. O conflito cessou em 1994, e o país entrou em uma escalada autoritária que perdura até os dias de hoje.

 Após dois governos curtos pós-independência, Heydar Aliyev — ex-dirigente soviético que governara o Azerbaijão entre 1969 e 1982 — assumiu o poder em 1993. Seu regime intensificou a repressão e o culto à personalidade. Com sua morte em 2003, o filho Ilham Aliyev assumiu em uma eleição fraudulenta e governa até hoje. Não satisfeito de ter herdado o poder se seu pai, Aliyev ainda resolveu envolver a família: sua esposa, Mehrabi Aliyeva, assumiu a vice-presidência do país em 2017 e segue até então; suas filhas Leyla e Arzu são proprietárias de uma das maiores empresas de comunicação do país; e seu filho mais novo, Heydar Aliyev Jr, é apontado como o próximo presidente. 

Sob Ilham Aliyev, o país se notabilizou pela repressão à imprensa: ocupa a 167ª posição no ranking da Repórteres sem Fronteiras (de 180 países) e a 164ª no índice de democracia do V-DEM. As eleições são farsas eleitorais com percentuais altíssimos — em 2024, Aliyev venceu com 92% dos votos. Esse índice inflado foi impulsionado pela vitória na Segunda Guerra de Nagorno-Karabakh, travada durante a pandemia contra a Armênia, com acusações de genocídio contra armênios e que fez o regime de Baku tomar controle do então ênclave armênio. Desde então, a repressão aumentou: nova lei de censura em 2022, prisões arbitrárias de ativistas pela liberdade de expressão e anticorrupção (posição 130 da lista da Transparência Internacional). Tudo tolerado pelo Ocidente, pela Rússia e por outros atores regionais. As denúncias do regime de  Aliyev sediar eventos de prestígio internacional, como o Festival Eurovisão (2012), o GP de Fórmula 1 (desde 2017), jogos da Eurocopa (2021) e, mais recentemente, a COP-29 em Baku — onde exerceu sua influência defendendo os combustíveis fósseis. 

Vista da capital do país, Baku. Fonte: Eurasia.travel

Imagem de Ilham Aliyev
Com esse histórico, como o regime nunca é criticado publicamente e mantém boas relações com quase todos? A resposta está no discurso de abertura da COP-29: petróleo e gás são "dádivas de Deus", segundo Aliyev. O setor representa entre 30% e 50% do PIB e 90% das exportações do país. Após a Guerra da Ucrânia e o boicote europeu à energia russa, o Azerbaijão tornou-se a principal fonte alternativa para a Europa. Em 2022, a União Europeia assinou um acordo prevendo dobrar a importação de gás azeri. A própria guerra contra a Armênia teve dimensão estratégica: a vitória garantiu uma rota de gasoduto via Turquia — aliado-chave com quem faz fronteira apenas pelo exclave de Naquichevão — em vez de depender da rota pela Geórgia e pela Rússia para ir à Europa. A UE, portanto, não interferiu no conflito. Ao mesmo tempo, Baku mantém laços militares e bom trânsito político com a Rússia, o que fez Moscou não intervir em favor de seu maior aliado regional, a Armênia. Com o petróleo, o regime também compra armas israelenses. Como as monarquias do Golfo, o Azerbaijão é tolerado por todos os lados — com exceção do Irã (que teme interferência entre os azeris sob seu território) e da irrelevante Armênia.

Um dos regimes mais autoritários do mundo, rapidamente esquecido quando os motores da F1 roncam nas ruas de Baku.

Cazaquistão: ditadura tão conhecida como Borat

Localização do país

Bandeira do país
Cruzando o Mar Cáspio rumo ao Oriente, chega-se a um dos maiores países do mundo em território. Com mais de 2,7 milhões de km², o Cazaquistão é o 9º maior país em área, mas sua população é de pouco mais de 20 milhões de habitantes — uma densidade de 7 pessoas por km². A razão está na geografia hostil: estepes áridas e semiáridas dominam a paisagem, limitando a agricultura e o clima que oscila entre verões tórridos e invernos gélidos. É a maior nação sem acesso ao mar. Apesar disso, o Cazaquistão é uma das economias mais prósperas da antiga União Soviética: PIB de 360 bilhões de dólares (o segundo maior entre as ex-repúblicas soviéticas), PIB per Capita de U$$ 17 mil dólares e IDH de 0,860, o mais alto da região. Uma nação quase perfeita na descrição — não fosse a democracia sacrificada em nome dessa prosperidade. O país ocupa posições críticas nos rankings: 123º no índice da The Economist, 127º no V-DEM e 141º em liberdade de imprensa. Como um país próspero permanece tão autoritário, desconhecido e discreto — a ponto de Sacha Baron Cohen transformar "Borat" em seu cidadão mais famoso (devido ao desconhecimento do Ocidente por este país)?

A região foi habitada por povos indo-europeus e, segundo estudos, pode ter sido um dos primeiros locais de domesticação do cavalo — até hoje símbolo nacional — pela cultura Botai. Parte da Rota da Seda, o território nunca sediou um grande império centralizado devido ao nomadismo local, até que povos túrquicos, ancestrais dos cazaques modernos, formaram o primeiro Canato em 552. No século XII, o Império Mongol dominou a região por mais de 200 anos, até a dissolução da Horda Dourada. Com a chegada do islamismo, formou-se o Canato Cazaque (século XV ao início do XIX), fragmentado em diversos reinos até a conquista pelo Império Russo. Os russos incentivaram a migração em massa para ocupar a Ásia Central, gerando conflitos com a população local. Com a Revolução de 1917, o Cazaquistão tornou-se república autônoma soviética. Durante a era soviética, viveu tragédias como a fome dos anos 1930 e recebeu alemães do Volga deportados. A imigração russa continuou e os cazaques chegaram a ser minoria em seu próprio país. Na Guerra Fria, o território foi palco dos primeiros testes nucleares soviéticos e abriga até hoje o Cosmódromo de Baikonur — de onde Yuri Gagarin partiu para o espaço —, que permanece como enclave russo. O Cazaquistão foi a última república a declarar independência da União Soviética, em 16 de dezembro de 1991, sendo por alguns dias a própria URSS. A grande maioria dos russos saíram do país neste período. Mas o que poderia significar um sopro de liberdade foi outra guinada autoritária, liderada por um ex-dirigente soviético: Nursultan Nazarbayev.

Com Nazarbayev, o país tomou rumos que até sugeriam uma abertura democrática. Devido às centenas de testes nucleares realizados nos tempos soviéticos, tornou-se um notório Estado antinuclear e abriu mão do arsenal herdado da URSS. Em 1993, adotou uma constituição que limitava o poder do Executivo. Mas Nazarbayev foi ampliando seu controle: em 1995, estendeu o mandato por decreto e, via referendo, alterou a constituição para concentrar mais os poderes. Reeleito em 1999 com mais de 80% dos votos, derrubou via Suprema Corte o limite de mandatos e venceu as eleições de 2007, 2011 e 2015 sem oposição real. A centralização do poder permitiu transferir a capital de Almaty (maior cidade do país) para Astana. Mesmo sem partido, Nazarbayev elegia aliados no parlamento e indicava juízes da Suprema Corte diretamente, ignorando os demais poderes. Prisões de opositores, repressão policial e corrupção sistêmica marcaram o período — prisioneiros sequer eram informados do direito a um advogado. O sistema tornou-se insustentável em 2018, quando protestos irromperam. Após meses de rara instabilidade, Nazarbayev renunciou em 2019 e foi sucedido por Kassym-Jomart Tokayev. Mas o ex-presidente manteve-se como conselheiro militar, e a capital foi renomeada Nur-Sultan em sua homenagem — mais um traço do culto à personalidade. Isso durou pouco: no início de 2022, novos protestos eclodiram na esteira da pandemia. A repressão contou com apoio militar russo, resultando em 238 mortos e quase 10 mil presos. Nazarbayev perdeu de vez seus cargos e saiu da vida política, consolidando Tokayev no poder — que manteve a repressão, ainda que sem atrair críticas internacionais proporcionais.


Acima, a antiga capital Almaty; abaixo, a atual capital Astana


O ex-ditador Nursultan Nazarbayev. Abaixo, o atual ditador Kassym-Jomart Tokayev
                        
Como o Azerbaijão, o Cazaquistão projeta uma fachada de estabilidade e modernidade graças a seus recursos minerais. Seu território é riquíssimo: petróleo e gás natural são o carro-chefe das exportações para Europa e China. É o maior produtor mundial de urânio e está entre os grandes produtores de carvão, ouro, cobre, crômio, ferro e manganês. Com tantas riquezas, o governo autoritário tornou-se um aliado útil para salvaguardar bilhões em investimentos estrangeiros — o país é chamado de "Singapura da Ásia Central". O Cazaquistão recebe investimentos ocidentais, sendo parceiro no combate ao terrorismo e na não proliferação nuclear. Para a Rússia, é aliado estratégico em sua zona de influência e parceiro militar relevante. Para a China, é fornecedor essencial de recursos e peça-chave da Nova Rota da Seda. Útil a todas as potências, o Cazaquistão seguirá como uma ditadura das mais discretas — ainda que, ironicamente, seu cidadão mais conhecido mundialmente seja o conhecido Borat, cujo estado cazaque chegou a processo o ator Sacha Baron Cohen, porém decidiu utilizar o personagem como forma de amenizar a imagem do país no exterior.

O "cazaque" mais famoso do mundo, o repórter Borat  Sagdiyev interpretado por Sacha Baron Cohen

Guiné Equatorial: uma longa ditadura familiar

Localização do país na África, próxima da linha do Equador

Bandeira do país
No coração da África, um dos menores países do continente abriga um dos regimes mais autoritários do mundo. Única nação africana cujo idioma oficial é o espanhol, a Guiné Equatorial é pouco comentada globalmente — mas guarda uma grande riqueza que convém a um governo autocrata controlar, em troca de não atrair atenção excessiva. De tempos em tempos, porém, alguma polêmica força o mundo a se lembrar dela. O país está entre os mais corruptos (172º de 180 países) e entre os mais repressivos (150º no V-DEM e 156º no índice da The Economist). Está em uma posição relativamente alta no ranking dos Reporteres Sem Fronteira (posição 94), as a mídia do país em realidade é mais caótica. Sua história explica como se chegou a isso.

A região foi originalmente habitada por povos pigmeus, depois substituídos pelos bantos. A ilha de Bioko, próxima a Camarões, foi o primeiro ponto de contato com europeus: o navegador português Fernando Pó chegou em 1472, e logo os portugueses exploraram o solo para plantar cana-de-açúcar. O território permaneceu colônia portuguesa até 1778, quando o Tratado de El Pardo transferiu o controle à Espanha. Nesse acordo, Portugal resolveu disputas na região do Rio da Prata cedendo Bioko e a parte continental do Rio Muni (atual Guiné Equatorial) à Espanha, enquanto os espanhóis abriram mão do que hoje são o Uruguai e partes do sul do Brasil. Apesar da posição estratégica, a Espanha pouco investiu: a região serviu principalmente ao tráfico de escravos, sendo inicialmente administrada pelo Vice-Reino do Rio da Prata, com capital em Buenos Aires — a 10.000 km de distância. Após a independência argentina em 1810, a Espanha reassumiu o controle, mas emprestou Bioko ao Reino Unido entre 1827 e 1843 — período em que os britânicos suprimiram o tráfico negreiro. Quase venderam o território, mas pressões políticas internas (após perder quase todas as colônias americanas) mantiveram a posse espanhola. Pouco investiram até 1885, quando a Conferência de Berlim quase lhes custou o território: a Espanha, fragilizada, só manteria suas terras africanas se comprovasse ocupação efetiva. Após acordo com a França em 1900, ficou com apenas 26.000 km² dos 300.000 km² originais (o país tem território hoje de 28.000 km²). A colonização efetiva veio com trabalhadores de outras partes da África e missionários, e em 1926 os territórios foram unificados como Guiné Espanhola. Com a vitória de Franco na Guerra Civil, nacionalistas das Canárias assumiram o controle, e o país permaneceu colônia até a independência, em 1968. O fim do franquismo espanhol, porém, não trouxe democracia — inaugurou um regime tão brutal quanto.

No ano da independência, Francisco Macías Nguema tornou-se o primeiro presidente. Eleito e inicialmente próximo do antigo colonizador, logo adotou retórica anti-europeia e ameaçou os poucos espanhóis remanescentes. Perseguiu opositores e aliados, aliou-se a União Soviética, China, Cuba e Coreia do Norte e, em 1972, autodeclarou-se "presidente vitalício". A repressão escalou: perseguiu minorias étnicas (ele era da maioria Fang), afirmou que "Hitler salvou a África", baniu a pesca, proibiu a palavra "intelectual", prendeu quem usava óculos e até quem andava de barco. O regime, descrito como "paranoico", levou à fuga de quase metade da população para países vizinhos e para a Espanha. Em 1979, a elite política se cansou da loucura comparada ao nazismo, e Macías foi deposto pelo sobrinho, Teodoro Obiang Nguema — e executado logo após o golpe. A esperança de dias melhores logo se desfez: Obiang instaurou um regime menos sanguinário, mas igualmente autoritário.

O ex-ditador Francisco Macías Nguema, considerado um dos piores ditadores africanos



Atual ditador Teodoro Obiang ao lado do ex-presidente Barack Obama
A descoberta de petróleo em 1995 fez as receitas dispararem — mas não para o país, e sim para a família Obiang, que passou a dominar a política. A corrupção tornou-se sistêmica: Obiang acumula fortuna estimada em US$ 600 milhões, sendo um dos chefes de Estado mais ricos do mundo, enquanto o país tem uma das maiores desigualdades sociais do planeta (índice de Gini elevado, de 58.8 segundo a ONU) e mais da metade da população não tem acesso a água potável. O culto à personalidade persiste, ainda que mais discreto. Embora haja eleições e outros partidos, Obiang venceu todos os pleitos com mais de 95% dos votos, sempre sob suspeita de fraude. A mídia é escassa e boa parte dela pertence a seu filho, Teodoro Nguema Obiang, o "Teodorín", apontado como futuro sucessor.

Poucas notícias da repressão vazam. Uma das raras ocasiões em que o país ganhou holofotes foi o Carnaval do Rio de Janeiro de 2015, quando a Beija-Flor de Nilópolis venceu com enredo sobre a Guiné Equatorial — sob suspeita de ter recebido 10 milhões de reais do governo guineano. Obiang é visto com frequência no Carnaval carioca e passa temporadas em seu apartamento em Ipanema ou no Copacabana Palace. Há 47 anos no poder, ele se mantém porque consegue aliados de todos os lados. Graças ao petróleo e à abertura a empresas estrangeiras, melhorou relações com os EUA — a ponto de a administração Trump pagar o país para receber imigrantes ilegais. Com a Rússia, permitiu a entrada do Grupo Wagner para proteger-se de tentativas de golpe. Espanha (antigo colonizador) e China também mantêm boas relações com o regime, que recentemente mudou a capital de Malabo (na ilha de Bioko) para Ciudad de la Paz. Um regime que garante a estabilidade em uma zona rica em petróleo e gás para todo o mundo.


Acima, a antiga capital do país Malab, localizada na ilha de Bioko; abaixo, a recém-inaugurada capital Ciudad de la Paz no interior do país.

Camarões:  futebol, cacau e vida longa à Paul Biya

Localização de Camarões, próximo ao centro do continente

Bandeira do país.
Ao norte da Guiné Equatorial, Camarões é o país mais conhecido da lista, sendo familiar ao público brasileiro e mundial — sobretudo por sua seleção de futebol. Graças a nomes como Roger Milla e Samuel Eto'o, tornou-se uma das mais fortes da África e frequenta a Copa do Mundo com regularidade (caindo no grupo do Brasil em 1994, 2014 e 2022). Essa imagem positiva, porém, ajuda a esconder um dos regimes mais autoritários e discretos do continente em um território grande (475.772 km²) e população de quase 31 milhões de habitantes, que pela diversidade climática e de biomas, é chamado de "Áfica em miniatura". 

Como na Guiné Equatorial, o território foi habitado inicialmente por pigmeus e depois por povos bantos. Ao norte, a civilização Sao deu origem ao Império Kanem-Bornu, um dos mais longevos da África (durou entre os séculos VIII ao XIX). Na costa, navegadores portugueses chegaram no século XV e, impressionados com a abundância de uma espécie de camarão-fantasma no Rio Wouri, deram à região o nome que originou "Camarões". Na Conferência de Berlim, o território passou ao Império Alemão como "Kamerun". A colonização alemã foi curta mas violenta, com conflitos constantes contra reinos locais e críticas de outras potências devido ao regime de trabalho dos locais. A produção de banana, coco e borracha era rentável. Após a Primeira Guerra Mundial e a perda das colônias alemãs, britânicos e franceses dividiram o território: a França ficou com a maior parte, e o Reino Unido, com uma faixa próxima à Nigéria. A independência veio com conflitos entre 1955 e 1964: o Camarões Francês tornou-se independente em 1960, e a parte britânica, em 1961. As duas foram unificadas em uma federação sob o comando do líder francófono Ahmadou Ahidjo.

Ahidjo governou de 1960 a 1982 e foi o arquiteto da centralização do poder. Nos anos 1960, criou leis para instaurar um regime de partido único. Em 1972, aboliu a federação e tornou o Estado unitário, retirando a autonomia da parte anglófona. A repressão aumentou com o apoio da França, que via em Ahidjo um aliado contra o comunismo na região. Em 1982, ele renunciou em favor de Paul Biya — um cristão, enquanto Ahidjo era muçulmano. Tentou controlar o governo nos bastidores, mas não contava com a astúcia de Biya, que resistiu a um golpe e o exilou no Senegal, onde Ahidjo morreu em 1989.

Ex-ditador do país, Ahmadou Ahidjo ao lado do então presidente estadunidense Ronald Reagan

Atual ditador Paul Biya, reeleito aos 92 anos de idade

O regime de Biya intensificou a repressão à imprensa: jornalistas opositores foram presos e torturados até a morte. Nos anos 1990, houve uma abertura formal ao multipartidarismo, mas Biya venceu as eleições de 1992 com cerca de 40% dos votos (sob acusações de fraude) e as seguintes com margens ainda maiores, sempre com opositores impedidos de concorrer. Derrubou o limite de mandatos na constituição e tornou-se, aos 93 anos, o chefe de Estado mais velho do mundo. Recluso, Biya raramente aparece em público, e especula-se que nem mesmo governe de fato, hospedando-se em hotéis de luxo na Suíça com diárias de até US$ 40 mil — um retrato da corrupção endêmica no país. Uma curiosidade: a homossexualidade é crime em Camarões (penas de até cinco anos), mas a filha mais nova de Biya, Brenda, declarou-se lésbica e mantém relacionamento com a modelo brasileira Layyons Valença, vivendo fora do país. Nas eleições de 2025, Brenda chegou a pedir votos contra o pai num vídeo, para depois apagá-lo e se desculpar.

Vista da capital Yaoundé

Altamente corrupto (142º no ranking da Transparência Internacional), repressor da imprensa (131º de 180 países) e classificado como autocracia (136º no índice da The Economist e 127º no V-DEM), o regime de Biya oprime a minoria anglófona e se mantém impune. Como? A resposta é simples e complexa ao mesmo tempo: Camarões jamais rompeu com a França, seu antigo colonizador. Desde Ahidjo, Paris fornece apoio financeiro e militar, interessada em manter acesso às riquezas de suas antigas colônias africanas — e Camarões ocupa uma posição geográfica estratégica no centro da África. Os EUA também apoiam o regime militarmente: o país abriga uma base de drones e é aliado no combate ao Boko Haram, grupo terrorista originário da Nigéria e que atua na região. Embora incomodado, o Ocidente paga o preço pela estabilidade, pelo acesso a petróleo recém-descoberto e ao cacau — Camarões é o quinto maior produtor mundial, fornecedor-chave para a indústria ocidental de chocolate, cuja colheita é alvo de acusações de trabalho forçado. A Rússia também coopera no combate ao terrorismo, sem exigir concessões democráticas. A China, principal investidor, ignora o regime desde que os negócios não sejam afetados. E Israel treina a guarda presidencial de Biya — força separada do exército regular —, o que faz de Camarões um dos poucos países africanos a apoiar Israel em votações na ONU. Uma teia de relações que mantém o regime de Yaoundé de pé a baixo custo, fazendo de Paul Biya um dos líderes mais longevos do mundo.

Ruanda: superação do passado com práticas autoritárias

Localização de Ruanda, na região dos Grandes Lagos Africanos

Atual bandeira do país 
Por fim, chegamos ao país mais inesperado desta lista. Patrocinador de clubes europeus de futebol  com destaque para o Arsenal , Ruanda é vendido como um caso de sucesso na recuperação após um dos maiores traumas nacionais e internacionais do século XX. Superficialmente bem-visto no exterior, seu líder é considerado moderado, embora esteja no poder há mais de três décadas. Por trás da fachada moderna e progressista, esconde-se um dos regimes mais discretamente repressivos do mundo.

Ruanda é um pequeno país do centro-leste africano: apenas 26.000 km², mas com 14 milhões de habitantes (um dos países mai densamente habitados do mundo). De clima ameno por sua localização montanhosa, tem uma história antiga. A população atual formou-se com a chegada dos bantos entre os séculos IX e XVI, dando origem aos dois principais grupos étnicos: Hutus e Tutsis. Diversos reinos surgiram na região, sendo o Reino de Ruanda o mais poderoso, com monarcas Tutsis. No século XIX, com a partilha da África, coube à Alemanha a administração do território. A colonização alemã foi indireta, mantendo a monarquia tutsi e seus privilégios. Durante a Primeira Guerra Mundial, os belgas, que controlavam o Congo, invadiram Ruanda e Burundi e, em 1922, unificaram os dois territórios sob seu domínio. Os belgas instituíram um sistema de carteiras de identidade com a etnia registrada — formalizando a divisão que se mostraria fatal. Após a Segunda Guerra, movimentos independentistas ganharam força e, em 1959, a Revolução Ruandesa levou hutus a massacrar milhares de tutsis e forçar centenas de milhares a fugir para Uganda e Congo. Com a abolição da monarquia, o país tornou-se independente sob Grégoire Kayibanda, que governou com partido único pró-hutu até 1973, quando foi derrubado pelo ministro da Defesa, Juvénal Habyarimana. Este manteve o regime totalitário pró-Hutu, com alguma estabilidade e crescimento econômico, embora Ruanda continuasse entre os mais pobres da África. As milícias tutsis contiveram-se por um tempo, mas uma bomba-relógio estava armada.

Imagem do então presidente  Juvénal Habyarimana, cujo assassinato foi estopim do Genocídio
Em 1990, a Frente Patriótica Ruandesa (FPR), composta majoritariamente por tutsis refugiados em Uganda e apoiada pelo ditador ugandês Yoweri 
Museveni, invadiu o país e iniciou uma guerra civil. A situação de Habyarimana era frágil: o preço do café, principal produto de exportação, despencara. Após três anos de conflito, um acordo de paz foi assinado em 1993. O cessar-fogo durou até o evento que transformou essa guerra ignorada em um dos episódios mais brutais da história: o assassinato dos presidentes Juvénal Habyarimana (Ruanda) e Cyprien Ntaryamira (Burundi), cujo avião foi abatido ao se aproximar de Kigali. Até hoje, a autoria é desconhecida — atribuída tanto à FPR quanto à milícia extremista hutu Poder Hutu. Independentemente da responsabilidade, o atentado despertou a fúria da maioria hutu. Armados com facões e coordenados via rádio, extremistas hutus massacraram tutsis, hutus moderados e a minoria Twa. Em pouco mais de dois meses, mais de 500 mil pessoas foram mortas, em uma escala sem precedentes. As grandes potências nada fizeram — os EUA, em especial, evitaram intervir no continente após o fracasso na Somália. A matança e as centenas de milhares de casos de abuso sexual só cessaram quando a FPR tomou Kigali, derrubando o governo interino hutu, que fugiu com milhões de pessoas para o Zaire (atual República Democrática do Congo).

O genocídio não marcou apenas Ruanda — desestabilizou toda a região dos Grandes Lagos. A crise de refugiados levou à Primeira Guerra do Congo (1996-1997), quando Ruanda invadiu o leste do Zaire para perseguir milícias hutus, culminando na queda do ditador Mobutu Sese Seko. Laurent Kabila assumiu o poder, mas logo rompeu com Ruanda e Uganda, dando início à Segunda Guerra do Congo (1998-2003) — também chamada de Segunda Guerra Africana —, que resultou em mais de cinco milhões de mortes, entre violência, fome e doenças.

Entender o pós-genocídio é essencial para explicar o atual regime ruandês. Após a queda do governo hutu, o cargo de presidente foi ocupado pelo hutu Pasteur Bizimungu (1994-2000). Mas o poder de fato já estava com o líder da FPR e vice-presidente, o tutsi Paul Kagame. Em 2000, Kagame assumiu a presidência, alterou a bandeira do país e baniu o partido de Bizimungu e o condenou a 15 anos de prisão (depois perdoado). Seu regime promoveu transformações reais: aboliu a identificação étnica, criou as Cortes de Gacaca para julgar responsáveis pelo genocídio (criticadas por serem, na prática, uma inquisição da FPR), reduziu a pobreza a menos da metade da população em pouco mais de uma década e elevou a expectativa de vida de 47 para 65 anos. Kigali tornou-se uma cidade de arranha-céus, e o turismo ecológico e de safári floresceu. O parlamento ruandês tem 60% de cadeiras ocupadas por mulheres, o maior percentual do mundo. O país baniu sacolas plásticas e adotou políticas ambientais rigorosas. Mas, por trás dessa fachada de vanguarda, velhas práticas autoritárias persistem.

Vista da capital Kigali, com constraste entre velhas construções e os arranha-céus

Diferentemente dos reclusos Afewerki e Biya, Kagame é carismático e se abriu ao mundo, vendendo a imagem de um país que superou suas diferenças. No entanto, para evitar "memórias do genocídio", a censura impera: a mídia é controlada por aliados do governo, e vozes divergentes são silenciadas. O parlamento, embora majoritariamente feminino, apenas valida as decisões do presidente. A oposição é impedida de concorrer, e um referendo em 2017 eliminou os limites constitucionais de mandatos. Kagame venceu as eleições de 2017 e 2024 com mais de 98% dos votos. Durante o governo britânico de Boris Johnson, Ruanda aceitou receber imigrantes ilegais em troca de pagamento. E há um aspecto que ameaça toda a região: na instável região de Kivu, no leste do Congo, o regime de Kagame apoia o grupo M23, formado majoritariamente por tutsis refugiados, que age sob ordens de Kigali para extrair minerais — ouro e coltan — contrabandeados para Ruanda. O governo nega as acusações, mas o contrabando é visível. O patrocínio à clubes europeus, como o Arsenal e o Atlético de Madrid, expõe a prática de regimes autoritários (como os árabes e o Azerbaijão) de amenizar seu autoritarismo com apoio aos esportes, em uma prática denominada sportwashing.

Na imagem, Paul Kagame, visto como grande líder africano para uns e um tirano para outros. Fonte: New African Magazine

Esse apoio externo revela a teia que sustenta Kagame. O Ocidente tolera e financia o regime porque ele realiza o "trabalho sujo" de estabilizar uma região historicamente conflagrada e facilita o fluxo de minerais congoleses críticos para novas tecnologias. Kagame explora a culpa ocidental pela omissão no genocídio de 1994 para mandar e desmandar no país. Mesmo classificado como autoritário pelos indicadores (114º no índice da The Economist, 142º no V-DEM e 146º em liberdade de imprensa), Ruanda se vende como um país à frente do seu tempo — uma vitrine para um continente marcado por dificuldades e ditaduras. Mas as ações do regime, dentro e fora de suas fronteiras, mostram algo bem diferente das imagens reluzentes de Kigali.

Conclusão

O autoritarismo segue aumentando pelo mundo. Quando não ameaçam a ordem global e os interesses das grandes potências, estes regimes passam quase que despercebidos e quase nunca são denunciados. Digo quase pois, quando denunciados, panos quentes são passados. Em comum, quase todos compartilham uma fórmula conhecida. Recursos naturais estratégicos que despertam o apetite de potências dispostas a fechar os olhos para a repressão interna em troca de estabilidade e contratos vantajosos para a sua exploração. Posições geográficasestratpegicas que os transformam em peças úteis no tabuleiro geopolítico, seja como rota alternativa ou o controle garante a estabilidade logística, seja como anteparo contra o terrorismo ou a influência de adversários. E, sobretudo, uma discrição cultivada a ferro e fogo: nenhum deles ameaça a ordem internacional, exporta ideologia ou confronta abertamente o Ocidente — ao contrário de ditaduras barulhentas como Coreia do Norte, Irã ou Venezuela.

São regimes que aprenderam a ser úteis sem ser incômodos. Reprimem jornalistas, fraudam eleições, perseguem minorias, praticam trabalho forçado e abastecem redes de corrupção — mas sediam grandes eventos esportivos e diplomáticos, estampam camisas de clubes europeus, participam do grande comércio global  e alguns estão até no cacau para o chocolate que consumimos. Para o mundo, são parceiros confiáveis; para seus cidadãos, prisões a céu aberto.

Enquanto a conveniência ditar as relações internacionais, esses regimes continuarão a prosperar no silêncio. Não porque ninguém saiba o que acontece dentro de suas fronteiras, mas porque há interesses poderosos demais para que alguém se importe. A indiferença, afinal, não é ausência de conhecimento, é uma escolha.

E a pergunta que fica é: até quando?