Disruptivo: Aquilo que altera o fluxo, o curso normal de um processo; que quebra um padrão; inovador; pioneiro
Escolhi essa definição porque ela se conecta direto com o que vou escrever. E, cá entre nós, depois de um longo hiato sem postar por conta da correria do trabalho (que, convenhamos, mata qualquer criatividade), nada melhor do que voltar falando de um assunto que muitos odeiam, mas poucos admitem acompanhar: o Big Brother Brasil.
Sou suspeito para falar. Assisto desde os 7 anos, em 2002. E, ao contrário do que dizem por aí, não acho que o programa seja só "pão e circo". Dá pra ser um bom profissional, falar três idiomas e ainda assim se perguntar: afinal, o que o comportamento dos brothers diz sobre o próprio Brasil? O programa é um verdadeiro laboratório sociológico e acompanhou, em 25 anos, as mudanças do país. A própria política, hoje, virou um grande BBB se repararem bem.
Mas, aos 30 e poucos anos, bati um dado: já são 25 edições, mais de 420 participantes, e a grande maioria (uns 95%) foi esquecida. O que me fez pensar: quem, de fato, quebrou os padrões? Quem foi contra o tal "gosto do brasileiro" e venceu, visto que muitos perfis vencedores se repetem? Com a era dos influenciadores, virar campeão perdeu um pouco o sentido, já que muitos querem apenas usar p programa para ganhar seguidores e levarem o prêmio em "publis". Nem todos terão sucesso nisso, mas o sucesso de figuras cada vez mais medíocres nos vende o contrário.
Então quero aqui falar sobre alguns campeões, seja pela tendência do programa ou o contexto social do Brasil não permitiriam que ganhassem o programa naquele momento. Contra todos os prognósticos iniciais, estes campeões se tornaram o que foram.
Vamos a lista
Jean Wyllys (BBB5)
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| À direita, Wyllis como deputado; à esquerda, na época do programa (fonte: Extra) |
O Brasil de 21 anos atrás era um outro país. Lula já era presidente, mas a sociedade era bem diferente. As redes sociais engatinhavam, a seleção tinha acabado de ser campeã do mundo e a Guerra do Iraque dominava os noticiários, assim como a corrupção do Mensalão que foi um dos pilares para a polarização de hoje em dia. Parece distante, né? E era. Naquela época, o BBB 5 entrou para a história. Considerado por muitos como uma das edições mais marcantes de todos os tempos, foi ali que o programa se consolidou como uma novela da vida real, com mocinhos e vilões bem definidos — uma fórmula que se vê até hoje.
O grande vilão da edição era o médico Rogério Padovan, que ficou conhecido como "Doutor Gê". Ele protagonizou desclarações homofóbicas e articulações contra o outro grupo que se formou na casa. E foi desse grupo de "mocinhos" que saiu um campeão com um perfil completamente inédito até então: o professor universitário baiano Jean Wyllys.
Natural de Alagoinhas, Jean era mestre em Letras e professor de pós-graduação. Em um país onde a representação LGBTQIAP+ na TV se resumia a personagens caricatos, Jean era um acadêmico, homossexual e não pedia licença para existir. Ele, antes do primeiro paredão (em que por menos de 1% de diferença não saiu), falou que era gay e que não tinha medo disso, além de ter sido mandado (com muitos votos da casa) por ser quem ele é. Ao voltar, ele confrontou os rivais e construiu uma amizade que ganhou o público com a então Miss Paraná e futura atriz Grazi Massafera e, contra todos os prognósticos (Grazi era favorita, graças a sua simpatia e beleza), venceu o programa com 55% dos votos, levando o primeiro prêmio de 1 milhão da história do reality.
Jean foi disruptivo por dois motivos: era o primeiro intelectual a vencer o BBB e, mais importante, o primeiro homossexual assumido a ser campeão, numa época em que a homofobia era regra, não exceção Outros homossexuais já haviam participado do programa como André Gabeh do BBB1 e Cristiano do BBB4 (que escondeu que era homossexual em sua participação). Jean não ficou no armário dentro do programa e assim, abriu armários pelo Brasil afora. Além de ter sido o primeiro contato com a comunidade LGBTQIAP+ sem a abordagem caricata que havia até então.
Eu tinha 10 anos e foi a primeira vez que tive contato com algo da comunidade LGBTQIAP+. Meus pais nunca tocaram no assunto. Foi vendo Jean na TV que entendi que existiam outras formas de amar e ser. Não sou uma pessoa desse universo, mas tenho amigos que são — e todos reconhecem a importância daquele momento. Um ano depois, na 5ª série, abracei um colega que a turma julgava ser gay. Fui taxado na hora e o resto daquele ano foi um inferno. Usavam aquilo para me diminuir, para tentar descredibilizar minhas notas e me queimar com outras garotas. E isso se repetiu outras vezes, especialmente por eu não performar a masculinidade que esperavam de mim. Jean Wyllys me mostrou, sem saber, que se podia ser homem acima de tudo, independente da sexualidade. Assim como eu, que não sou o "hétero top padrão", também sou.
Talvez o Brasil de hoje não elegesse Jean campeão. Vimos os retrocessos que ele próprio enfrentou como deputado federal, até precisar deixar o país. Mas isso não apaga o feito: Jean Wyllys foi o primeiro campeão disruptivo do BBB, e sua vitória mudou o programa para sempre. Outros participantes gays participaram e a sua presença aumentou ao longo dos anos, mas ganhar ficou cada dia mais complicado.
Maria Melilo (BBB11)
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| À esquerda, Maria na época do programa; à direita, atualmente (fonte: O Globo) |
Demos um salto para 2011. O mundo ainda sentia os efeitos da Crise de 2008, enquanto a Primavera Árabe mostrava o poder das redes sociais para derrubar governos e iniciou o poder das redes sociais como armas políticas (o que pioraria ainda mais). O Brasil, que havia passado quase ileso em 2008, vivia o auge do crescimento econômico e da popularidade de Lula, que pavimentou a eleição de Dilma Rousseff, a primeira e até hoje única mulher a se eleger presidente.
E as redes sociais, pela primeira vez, começavam a mudar o jogo do BBB. O Twitter e o Facebook influenciavam os rumos do programa, e as votações online já superavam o telefone. O Orkut, com seus fã-clubes organizados, tinha sido decisivo para a vitória de Marcelo Dourado no BBB10 — a famosa "Máfia Dourada".
Mas, apesar dos avanços tecnológicos, um dado chamava a atenção nas dez primeiras edições: apenas duas mulheres haviam vencido o programa. Cida (BBB4) e Mara (BBB6) tinham perfis parecidos: origem humilde, pouca protagonismo dentro da casa e histórias de vida que sensibilizaram o público. Fora isso, os homens dominavam e ganhavam o programa mesmo com as mulheres tendo mais apelo do público, aparentemente. A eleição de Dilma pode ter influenciado o Brasil a eleger a terceira campeã e daqui em diante, as mulheres dominaram as edições seguintes. O pontapé para isso veio da atriz e modelo paulista Maria Melilo, que entrou na casa com um objetivo claro: ganhar o prêmio de 1,5 milhão para alavancar a carreira. Mas sua trajetória teve todos os ingredientes de uma novela que sempre sonhara em protagonizar.
Na primeira semana, ela se envolveu com o músico Maurício, o "Mau-Mau". Duas semanas depois, ele foi eliminado. Maria, então, começou a se aproximar do médico Wesley. Até que, numa reviravolta digna de roteiro, Mau-Mau voltou ao programa numa repescagem. Ao retornar, ignorou completamente Maria, mesmo com ela tentando uma reaproximação. Ela não se fez de rogada: assumiu de vez o romance com Wesley e enfrentou as grosserias do ex-affair. O público comprou a briga dela. Na final, Maria venceu com 43% dos votos, disputando o prêmio com o próprio Wesley, que se destacou também pelo relacionamento e pelo bom trato com a moça e com o carismático Daniel, que ficou marcado por sua amizade com um coqueiro.
A vitória de Maria foi disruptiva por vários motivos. Ela quebrava o padrão das vencedoras anteriores: era jovem, bonita, divertia-se nas festas e viveu sua sexualidade sem culpa, envolvendo-se com dois homens na mesma edição. Até então, mulheres com esse perfil não chegavam à final — quando chegavam, eram engolidas pelo julgamento moral do público. Fazer casal no BBB sempre foi um risco, especialmente para mulheres. Elas sofriam — e ainda sofrem — uma cobrança muito maior. Naquela época, mulheres atraentes que passavam pelo programa eram imediatamente convidadas para posar nuas, o que gerava a percepção de que "não precisavam" do prêmio. Maria enfrentou esse preconceito: houve quem espalhasse boatos de que ela seria garota de programa só por ter se envolvido com dois homens e ter tido fotos nuas vazadas durante sua participação no programa, mas isso fazia parte de um trabalho artístico. Com os redpills fortes na internet hoje em dia, perigava Maria nunca ter ouvido o histórico discurso feito na final pelo então apresentador do programa Pedro Bial.
Ela venceu o julgamento e os preconceitos e mostrou que uma mulher podia ser livre, bonita, se divertir e ainda assim ser campeã. Depois do programa, posou nua — não por necessidade, mas por escolha. Ironicamente, o público de hoje, nas redes, talvez fosse ainda mais cruel com uma Maria Melilo. O moralismo digital aumentou, disfarçado de discurso de libertação. Mas o fato é que, depois dela, as mulheres passaram a vencer com mais frequência — embora a cobrança por "coerência" e "retidão" nunca tenha sido tão grande.
Maria Melilo venceu entre erros e acertos, como todo ser humano. Hoje, segue como influenciadora e carrega uma vitória ainda maior: superou um câncer no fígado. E segue sendo, para sempre, a campeã que quebrou o tabu de que mulher bonita e livre não podia ganhar o BBB.
Vanessa Mesquita (BBB14)
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| Acima, Vanessa na época do programa; abaixo, como está atualmente (Fontes: Globo e CNN) |
O ano de 2014 foi um daqueles que a gente não esquece. O Brasil sediou uma Copa do Mundo em casa , enquanto engatinhava numa crise política e econômica que se arrastaria por anos, potencializado pela tragédia do 7 a 1 ante a Alemanha, que expurgou o Maracanazzo de 1950, mas criou uma síndrome de vira-lata ainda pior. Era o cenário perfeito para um BBB histórico, certo? Quase.
O BBB14 não foi uma das edições mais marcantes da TV, mas marcou o início de uma nova fase: a audiência tradicional caía, mas a repercussão nas redes sociais explodia como nunca. E, pela primeira vez, os fã-clubes organizados — os famosos fandoms — mostraram sua força para além do Twitter. A edição teve dinâmicas confusas, uma participação relâmpago da personagem Valdirene (Tatá Werneck) e um emaranhado de relacionamentos. Mas o que realmente ficou na memória foi um casal: Clara e Vanessa, que marcaram um dos ships mais marcantes de toda a história do programa, o "Clanessa".
Elas se aproximaram nas primeiras semanas e formaram o primeiro — e até agora único — casal lésbico da história do BBB. Diferente da maioria dos casais héteros, que costumam prejudicar um dos dois na reta final, Clara e Vanessa se beneficiaram mutuamente. A química entre as duas era tão genuína que o público se apaixonou junto. Elas enfrentaram punições por se beijarem em locais incomuns, foram acusadas por colegas de "forçarem um casal" para ganhar votos — acusação que nunca colou — e Vanessa, em especial, enfrentou o assédio de outros homens da casa para que ela largasse Clara e mais cinco paredões. A final da edição, a primeira totalmente feminina (junto da vice-campeão Ângela), Vanessa Mesquita se sagrou campeã com 59% dos votos. Clara ficou em terceiro lugar.
Vanessa era um perfil improvável de vencedora até então: modelofitness , ativista pelos direitos dos animais (vegetariana assumida) e bissexual. Clara, por sua vez, também quebrava padrões: fazia conteúdo adulto, era casada com um estrangeiro e vivia um relacionamento aberto. Duas mulheres, num casal homoafetivo, conduzindo a edição e chegando à final. Em 2014, isso foi revolucionário. E vinha sendo a tendência daquele ano de ter isso na televisão. Naquele mesmo ano, a Globo exibia o primeiro beijo gay em suas novelas (Félix e Niko, em "Amor à Vida") e, logo depois, o primeiro beijo lésbico (Clara e Marina, em "Em Família").
Pois bem. O que veio depois todos nós sabemos.
O conservadorismo cresceu após 2014 e do Impeachment de Dilma. As emissoras, inclusive a Globo, passaram a evitar relações homoafetivas explícitas com medo de afugentar o público mais conservador e na crença que o aumento dos evangélicos no país prejudicaria seus produtos. E o BBB seguiu o mesmo caminho. Antes de Clara e Vanessa, tivemos participantes sáficas como Angélica "Morango" (BBB10) e Diana Balsini (BBB11). Depois delas, o programa passou a escalar, no máximo, uma mulher LGBT por edição — quase sempre comprometida, quase sempre sem espaço para qualquer envolvimento dentro da casa. A subrepresentação lésbica aumentou, mesmo com o público lésbico sendo um dos mais fiéis à atração. Sem representatividade, esse público "inventou" mulheres e casais lésbicos desde então. Enquanto os homens gays seguiram presentes e protagonizando momentos (como o beijo de Gil do Vigor e Lucas Penteado no BBB21), as mulheres lésbicas e bissexuais desapareceram do radar. E uma vencedora como Vanessa Mesquita, bissexual e ativista, tornou-se a cada ano mais improvável.
Vanessa, hoje, segue sua luta pelos animais, formou-se em medicina veterinária e mantém amizade com Clara. As duas, juntas, marcaram uma geração e mostraram que o amor — e o público — pode ser muito mais simples do que a TV imagina. Mas em um casal sáfico, talvez seja improvável.
Thelma Assis (BBB20)
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| À esquerda, Thelma durante o programa; à direita, como está atualmente (fonte Globo e UOL) |
O BBB20 foi a última grande revolução dentro do formato do programa até aqui. E veio na hora certa.
A edição anterior, o BBB19, havia sido um desastre: audiência baixíssima, elenco apático e uma vencedora que, para muitos, representava o auge do bolsonarismo no país. O Brasil mergulhava na ascensão da extrema-direita mundial — Trump nos EUA, Brexit na Europa — enquanto o Brasil enfrentava os retrocessos do Governo Bolsonaro, como a Reforma da Previdência. Ninguém imaginava que o maior desafio ainda estava por vir: a pandemia de COVID-19, que vitimaria mais de 700 mil pessoas só no Brasil.
A Globo precisava salvar o programa. A solução foi radical: misturar anônimos ("Pipocas") com famosos ("Camarotes"). A ideia dividiu opiniões — afinal, a graça do BBB sempre foi pessoas comuns sem noção de TV — mas funcionou. O elenco de famosos trouxe repercussão imediata: Babu Santana, Manu Gavassi, Bianca Andrade, Rafa Kalimann, Pyong Lee, Gabi Martins, entre outros. Nomes conhecidos (ou nem tanto) que virariam personagens inesquecíveis.
Mas então, o mundo parou. A maioria dos locais foi fechado e eventos esportivos e programas de entretenimento foram paralisados. O BBB se tornou o único programa ao vivo e diário da TV brasileira. As pessoas, confinadas em casa, encontraram no reality o único lazer possível. A audiência disparou, o público se diversificou (inclusive homens que antes só viam esporte) e as redes sociais viraram uma extensão do programa. Era o único escapismo de um mundo que vivia sob notícias negativas a todo o momento da pandemia. Os patrocinadores perceberam o filão. Nunca se investiu tanto em publicidade dentro do BBB, e isso mudaria o jogo para sempre — mas isso é papo para outro artigo.
Dentro da casa, a edição começou com um embate: homens contra mulheres, já que os homens fizeram um plano para fazer as mulheres comprometidas traírem seus parceiros. A médica Marcela McGowan enfrentou o grupo dos "machos tóxicos" e assim, despontava como favorita, mas se desgastou ao se envolver com um participante que entrou depois, Daniel Lenhardt, e toda sua luta feminista virou hipocrisia. O protagonismo passou para a rivalidade entre o arquiteto Felipe Prior e a cantora Manu Gavassi — o paredão entre eles entrou para o Guinness Book como o mais votado da história.
Com Prior eliminado, Babu Santana virou o único homem entre dez participantes e se tornou um dos favoritos, visto que sofria acusações infundadas por parte de algumas das mulheres da edição. Mas caiu no último paredão. A final foi totalmente feminina: Manu Gavassi, Rafa Kalimann e Thelma Assis.E aqui vale uma pausa, porque este texto era para ser sobre Thelma, e eu quase não falei dela. E isso diz muito sobre sua trajetória.
Thelma passou a edição inteira à sombra do grupo das "Fadas Sensatas" (formado por Marcela, Manu e Rafa). Pouco protagonizou os grandes embates, pouco apareceu nos VT's. Era o que o público chama de "planta". E, ainda assim, venceu, se tornando a 20ª vencedora do BBB e a primeira mulher negra retinta a ganhá-lo.
Sua vitória foi disruptiva exatamente por isso: numa edição dominada por celebridades e influenciadoras, com o público cada vez mais exigente por participantes "que joguem" e diversas narrativas e reviravoltas, uma participante de perfil baixo venceu. Ela não tinha as grandes questões financeiras de outros vencedores, mas carregava histórias potentes: foi adotada na infância, formou-se médica pelo Prouni e representava, na pele, o reflexo de políticas públicas que mudaram vidas. Fora ela ter sofrido racismo dentro do programa, não de maneira explícita, mas o fato de ser excluída em alguns momentos fazia o público a ficar com ela. Mesmo não sendo a protagonista da história daquela edição.
O público entendeu que, para Thelma, as portas depois do programa seriam mais estreitas. E votaram nela para a vitória. A vida, porém, foi generosa com Thelma. Durante a pandemia, usou sua visibilidade para atuar no combate ao vírus. Depois, virou influenciadora na área médica e ganhou um quadro de saúde na própria Globo. Uma médica venceu o maior reality do Brasil durante a maior pandemia em um século. Não poderia ter sido mais simbólico.
Arthur Aguiar (BBB22)
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| À esquerda, Arthur na época do programa; à direita, o ator atualmente (Fonte: iBahia) |
O ano de 2022 foi o começo do fim da pandemia. As máscaras caíram, os locais públicos reabriram, mas o Brasil carregava a dor de mais de 700 mil vidas perdidas — muitas delas por negligência das autoridades da época. Era ano de eleição, a mais polarizada da história. Lula voltava ao poder depois de sair da prisão. No mundo, a Rússia invadia a Ucrânia, reacendendo o maior conflito na Europa desde a Segunda Guerra. E no meio de tudo isso, o BBB22 tentava repetir o fenômeno do ano anterior, uma missão impossível.
O BBB21 havia sido um marco. Juliette virou fenômeno com mais de 30 milhões de seguidores, Gil do Vigor virou contratado fixo da Globo, e até participantes irrelevantes ganharam seus 15 minutos de fama. Mas o lado obscuro da edição também ficou marcado: Karol Conká saiu com 99,17% de rejeição, Lucas Penteado desistiu após perseguição implacável, e nomes como Fiuk, Projota e Nego Di saíram "cancelados" na internet por suas falas e atitudes dentro do programa. Em sua maioria, eram famosos consagrados antes de entrar na casa. O cancelamento virou regra e as redes sociais viraram um tribunal rápido em moer as reputações, um reflexo dos dias atuais E o medo de ser o próximo virou o grande fantasma do BBB22.
Os participantes entraram "brifados": sabiam que qualquer deslize poderia destruir suas carreiras. O resultado foi uma edição morna, sem graça, onde todos evitavam conflitos a qualquer custo. O símbolo disso foi Tiago Abravanel, neto de Silvio Santos (um dos grandes reis do entretenimento do Brasil), que passou os dias na casa promovendo meditação e harmonia — até desistir do programa. O público, que esperava outro BBB21, se decepcionou. Vinicius, que entrou com favoritismo e milhões de seguidores por sua "semelhança" com Gil do Vigor, forçou situações tão artificiais que perdeu a graça rapidamente. O resto do elenco, misto de Pipocas sem carisma e Camarotes sem coragem, não entregava nada.
Até que uma rivalidade salvou (um pouco) a edição: Jade Picon vs. Arthur Aguiar. De um lado, uma das influenciadoras mais poderosas do país, que veio ao programa preparada, articulada e disposta a jogar. Do outro, um ator que foi um ídolo teen que vinha em ostracismo, marcado por múltiplas traições à ex-esposa Maíra Cardi, entrando como cancelado antes mesmo de entrar e com uma difícil missão de reverter a péssima imagem. A estratégia de Jade era clara: queimar Arthur, que o público já o via como cancelado. Mas o efeito foi o contrário: o público enxergou perseguição e migrou para o lado dele, esquecendo o que fez fora da casa. Arthur, por sua vez, veio preparado como nenhum outro. Aplicava técnicas de coach em seus discursos, lembrava de cada evento da casa com precisão cirúrgica, evitava bebida e confusões com as mulheres, além de mostrar emoção por sua filha e esposa, que fez enorme campanha e tornou seu público ativo para evitar a eliminação. Passou a imagem de alguém que realmente mudou — e o público comprou. Ele se livrou de todas as armadilhas. E venceu uma final composta apenas por outros Camarotes (Douglas Silva e Paulo André), em uma final toda masculina pela primeira vez na história do programa.
A vitória de Arthur Aguiar foi disruptiva por um motivo simples: ele foi o primeiro Camarote a ganhar o BBB, bem como foi o primeiro "cancelado" a ganhar o programa, revertendo o que alguns particpantes da edição anterior demorariam anos para conseguir. Até então, o público sempre negava o prêmio aos famosos — afinal, eles "não precisavam". Mas na ausência de Pipocas carismáticos, e diante de um jogo bem jogado, Arthur quebrou essa regra. Mostrou que é possível reverter um cancelamento, que é possível ser celebridade e vencer, e que preparação mental pode ser tão importante quanto carisma (que lhe faltava, aliás). Se no BBB21 o cancelamento foi a regra, no BBB22 ele foi superado. E Arthur Aguiar entrou para a história como o primeiro — e até agora único — famoso a levantar o troféu.
Davi Brito (BBB24)
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| À esquerda, Davi pós-programa; à direita, como está atualmente (Fonte: iBahia) |
O BBB24 foi o último comandado por Boninho e talvez o mais simbólico de uma nova era: a era onde as marcas já não são apenas patrocinadoras, mas donas do jogo. O programa virou vitrine, e os participantes, mercadorias. Lá fora, o mundo seguia em frangalhos. Gaza era massacrada sob silêncio das grandes potências, Rússia e Ucrânia seguiam em conflito e Donald Trump voltaria ao poder. A Inteligência Artificial embaralhava o real e o falso, e as fake news se tornavam impossíveis de rebater. Vivemos uma guerra de narrativas — e o BBB não ficaria de fora.
A edição anterior havia sido mais uma edição fraca, marcada por uma vencedora apagada e denúncias de racismo abafadas pela produção. O BBB24 precisava dar certo. E deu. Não apenas pela audiência da TV, que aumentava depois de algum tempo, mas pelo caos instalado. Foi a edição mais calamitosa desde o BBB21 — e desta vez sem pandemia para justificar o interesse pelo público. O protagonista desse caos tinha um nome: Davi Brito.
O motorista de aplicativo baiano entrou no programa pelo "Puxadinho", uma casa onde participantes restantes a entrar eram escolhidos pelo público. E desde o primeiro minuto, virou o centro de tudo. Discutiu com metade da casa: Wanessa Camargo (expulsa após um caso polêmico com ele), Yasmin Brunet, Rodriguinho, MC Bin Laden, Nizam, Lucas Buda, Michel, Leidy Ellen. Não teve medo de briga, não teve medo de ser odiado, não teve medo do cancelamento. Entre declarações incoerentes (como o fato de assistir Ayrton Senna na infância, quando dizia que não tinha televisão e nasceu em 2022), ou consideradas homofóbicas (quando disse "Eu sou homem, não viado" - quando o contexto da briga era dizer que era verdadeiro, mas de um jeito torto) ou machistas (quando disse que mulheres deveriam ser submissas). Com isso, Davi dividiu o Brasil. Para uns, foi o resgate do "bbb raiz" — treteiro, sem filtro e sem frescura. Para outros, era chato, incoerente e protegido pela edição. Mas uma coisa é fato: sem ele, o BBB24 seria mais uma edição esquecível, visto que movimentou a casa e criou quase todas as situações daquela edição. Isso tudo sem ser querido por todo o público, que tinham olhos para outras participantes.
A começar por Beatriz Reis, a Bia do Brás, que começou como favorita absoluta devido a ser aposta de Boninho com seu jeitão expansivo, mas cansou o público e foi eliminada perto da final — colocada no paredão pelo próprio Davi. Isabelle Nogueira, a cunhã do Boi Garantido, conquistou o país ao levar o Festival de Parintins para dentro da casa, mas passou a edição inteira na sombra de Davi, evitando conflitos, sendo "planta" — e isso custou seu favoritismo, pois ela não parecia comprometida com o jogo. Fernanda Bande virou fenômeno no Twitter com frases de efeito ("Chora bonequinha", "Tem um filme chamado 127 horas [...]") e um certo conhecimento geral, mas esbarrou em declarações consideradas capacitistas, xenofóbicas e racistas, além de ficar isolada do resto da casa com sua aliada Pitel no quarto (o que rendeu um programa para elas). Acabou sendo eliminada na metade final, mesmo com as redes a quase mantendo na casa, o que revelou a hipocrisia de parte do público progressista em apoiá-la (ela apoiava até então Jair Bolsonaro e seus relacionados). De qualquer forma, nenhuma delas seria disruptiva como Davi.
E ele venceu. Mas não foi fácil. Dentro da casa, enfrentou o racismo escancarado de participantes como Wanessa Camargo, que o acusava de diversos crimes. Parte do público fez o mesmo. E este público jamais aceitaria um homem negro, pobre, sem jeito com câmeras, sem discurso ensaiado, sem medo de ser incoerente levar o maior prêmio da história do programa até então. Aliando seu foco no jogo e um carisma que conquistou fãs e haters, ele ganhou o prêmio na final com dois de seus aliados dentro da casa: o então casal Isabelle e Matteus Amaral.
Foi disrupitivo pois a história do programa foi cruel com homens negros. Participantes negros com comportamento semelhante ao de Davi raramente iam longe. Quando iam, era na posição de coadjuvantes de protagonistas brancos, ou como "plantas" inofensivas. Davi quebrou isso, pois fez brancos serem seus coadjuvantes. Foi protagonista do início ao fim, agindo como os "héteros tops" das antigas edições e foi abraçado pelo público como injustiçado. Mas o pós-jogo (que hoje tem um peso muito maior) o fez pagar o preço.
Os últimos vencedores do BBB, com exceção de Davi, foram escolhidos a dedo pelas marcas na selação do programa: tinham familiaridade com as redes, sabiam se comportar com o público e eram "comunicáveis". Davi não se encaixava nesse molde. Ele queria o prêmio, não a fama. E quando a fama veio, vieram as polêmicas: separação conturbada, negócios obscuros, acusações de violência contra mulher. Não teve a ajuda que outros tiveram para se posicionar na era onde os campeões do programa não vencem apenas o programa. Viram símbolos utilizados pelos patrocinadores e rostos para as marcas. E parte do público do programa não o vê como vencedor pois ele fez poucas propagandas (a maioria para empresas duvidosas), já que não se tornou garoto-propaganda como Bia do Brás ou um programa de TV como Fernanda Bande.
O público que o elegeu o renegou. Exigiam dele uma pureza que nunca exigiram de outros. Exigiam que ele fosse perfeito num mundo que o empurrou para o abismo. Que ele cumprisse as promessas que ele fez no programa, como se casar com sua então "esposa" e fazer medicina, que foram vistas depois como mais mentirosas que promessa de político. E os políticos não sofreram a mesma cobrança e mesmo se ele cumprisse, seria chamado de forçado ou iriam dizer que ele não deveria fazer medicina por não saber ler e escrever com precisão. Davi é o único homem negro a vencer o BBB. E, se o racismo estrutural e a hipocrisia do público continuarem como estão, sempre passando o pano para participantes brancos ou considerados bonitos, será o único por muito tempo, visto que outros com perfil semelhante a ele já nascem odiados. Ele foi o ganhador mais protagonista dos últimos tempos e foi o que os fãs do reality nas redes desejam: alguém que movimentasse com brigas e discussões, além de falar na cara do adversário. Mas ele não tinha a aparência de como gostariam, que muitos sabem como gostariam.
Davi foi disruptivo pois foi contra a maré após o excesso de virtuosismo que os vencedores pós-Juliette deveriam apresentar, além de ter um pós como o dela sendo garoto-propaganda das marcas e tendo algum tipo de carreira artística, além de ter milhões de seguidores. Claramente ele não deveria vencer o programa, tendo influenciadores e marcas indo contra a ele.
Perfil de próximo campeão disruptivo
A edição atual do programa, o BBB26, tem vindo de uma grande repercussão após a fraquíssima edição do BBB25. A atual edição do programa reúne além dos Pipocas e Camarotes, Veteranos de outras edições que voltaram nesta e que foram participantes marcantes que não venceram o programa. Tendo menos de um mês e diversos acontecimentos, a edição reúne alguns participantes que podem a vir a ser campeões disruptivos e entrarem nesta lista. Sendo assim, os principais candidatos e o porquê são:
- Milena Lages (Tia Milena): a recreadora infantil passa por diversas polêmicas e é subestimada pelos colegas da casa. Apesar de comparada a Davi (e muitos torcerem o nariz), ela pode ser uma campeão disruptivo por possivelmente ser portadora de TEA (Transtorno do Espectro Autista), o que justifica alguns de seus comportamentos. Parte do público contesta sua ida a casa por ser um risco à ela e aos outros confinados e alguns a julgam por influenciar seu trabalho com crianças, além de pensarem que ela possa ser uma personagem.
- Campeão acima dos 40 anos: Na história do programa, nunca houve um campeão ou campeã acima dos 40 anos de idades. Marcelo Dourado foi o campeão mais velho (com 37 anos na época) e isso pode ser quebrado já que um terço do elenco atual tinha idade acima de 40 anos e seguem no jogo Ana Paula Renault (44), Alberto Cowboy (49), Jonas Sulzbach (40) w Babu Santana (46), onde todos são ex-participantes e voltaram como "Veteranos" e já são quarentões. Por fora, temos o Pipoca Leandro Rocha (42) e a atriz Solange Couto (69), sendo Couto a mais velha do programa atual. Alguns dos favoritos da edição atual estão neste grupo.
- Marciele Albuquerque: Caso ganhe (difícil pelo seu desempenho atual), a dançarina e influenciadora paraense, que é a cunhã-poranga do Boi Caprichoso, se tornaria a primeira participante indígena a ganhar a competição. Ela é somente a terceira participante autodeclarada indígena (da etnia Mundukuru) a participar do BBB e foi a que chegou mais longe até aqui. Os outros dois indígenas que participaram não passaram da primeira semana: o acreano Vanderson Brito do BBB19 (da etnia Huni Kuin) foi expulso devido a responder processo por agressão e importunação sexual antes do programa, com o caso prescrevendo; e Arleane Marques do BBB25 (da etnia Mura), que foi eliminada no primeiro paredão junto de seu marido (a disputa era em duplas).
- Ana Paula Renault: Além de poder ser a primeira campeã acima dos 40 anos, Ana Paula Renault pode quebrar dois tabus de uma vez: o primeiro é de ganhar o programa após ter sido expulsa do programa uma vez, onde em sua edição (BBB16), ela foi expulsa após dar um tapa no participante Renan. Outro tabu é de ser a primeira participante a ganhar o programa tendo passado por outro reality, já que ela participou da Fazenda em 2018 e foi a terceira eliminada.
Outros perfis que seriam disruptivos, além de incluir questões identitárias (não citei participantes de origem asiática ou sendo de outros espectros da sexualidade) ou mais velhos (já que o Brasil vive um processo de envelhecimento), incluem pessoas que entram na casa como sendo mais jogadoras do que participante, ou seja, tomam decisões racionais dentro do jogo e não estão nem aí para o que o público quer caso o entedam. Outro perfil impossível hoje e que seria disruptivo é de um participante que fosse considerado "100% vilão" da edição, ou seja, abraçados pelo público mesmo cometendo maldades como um vilão de novela. Embora vilões de séries e novelas tenham nos últimos anos ganhado mais destaque que os protagonistas, ainda não são aceitos como vencedores de reality show em sua maioria. Há outros perfis, que se quiserem, gastem um pouco de água para ter a resposta nas I.As da vida.
Pois bem, esta foi a minha opinião sobre campeões disruptivos. Alguém faltou na lista? Algum nome não concordam. Deixe nos comentários o seu feedback (digo, opinião) e prometo este ano mais textos assim.
Até logo.